Attico Inácio Chassot ministra Aula Inaugural no Campus Erechim
Nova turma de Educação do Campo foi recebida com palestra do acadêmico, referência em sua área de atuação

Assessoria de Comunicação do Campus Erechim

Publicado em: 28 de setembro de 2017 20h09min / Atualizado em: 29 de setembro de 2017 08h09min

A UFFS – Campus Erechim realizou, na noite da quinta-feira (28), a Aula Inaugural da nova turma do curso superior Interdisciplinar em Educação do Campo: Ciências da Natureza. O evento teve, como convidado especial, o professor Attico Inácio Chassot – referência em alfabetização científica e ensino de Ciências na América Latina. Participaram também o vice-reitor da UFFS, Antônio Inácio Andrioli, o pró-reitor de Extensão e Cultura, Emerson Neves da Silva, além da coordenadora acadêmica do Campus Erechim, Juçara Spinelli.

Partiu do coordenador do curso, Denilson da Silva, o convite para que Chassot ministrasse a Aula Inaugural. Desde 1990 Chassot é envolvido com a questão da educação do campo, muito por ter trabalhado junto ao MST. Um de seus livros, que trata sobre o tema, já está em sua sétima edição. “Isso mostra minha ligação com aqueles que durante muitos anos não tiveram acesso à universidade e que agora estão chegando. Esta é a responsabilidade social que nós temos”, disse o acadêmico.

Segundo o professor, a maioria do público que hoje cursa as faculdades de Educação do Campo pertence à primeira geração de suas famílias a chegar à universidade. “E com isto, evidentemente, podemos imaginar um número muito grande de pessoas que vão mudar o seu jeito de ser”, destacou. “Eu acho que uma cidade que tem um campus de uma universidade federal deve sentir a diferença por causa deste campus. É algo significativo no sentido das transformações sociais. Eu soube que das três turmas do curso de Educação do Campo da UFFS, cerca de 87% dos alunos são indígenas. Quer dizer, essas pessoas muito provavelmente são as primeiras em suas comunidades que chegaram à universidade.”

Na palestra, o acadêmico discorreu sobre os assuntos que lhe são familiares, incluindo os novos desafios do ensino. Para Chassot, ainda há muita dificuldade em se entender quais os significados de uma escola nesse novo tempo. Mas ele lança uma luz: “Um professor de uma escola que só queira transmitir conteúdos, muito provavelmente não tem mais lugar. Os conteúdos estão disponíveis de uma maneira muito fácil. Hoje, mais do que ensinar, nós temos que nos preocupar em como ensinar. E nisso temos que ter muito presentes os saberes que estão disponíveis e que ainda não chegaram à universidade. Eles devem ser buscados para evitar que se percam”, disse.

O professor também foi um dos convidados da Semana Acadêmica de Pedagogia, que ocorre até esta sexta-feira (29) na UFFS – Campus Erechim. Lá, tratou sobre a alfabetização científica. “Eu diria que ciência é uma linguagem feita pelos homens e mulheres para explicar o mundo natural. E a alfabetização científica é saber ler a linguagem em que o mundo está escrito”, afirmou. “Se eu sei explicar o motivo de o leite derramar quando ferve e a água não, eu sou um alfabetizado científico. Claro que nós temos diferentes graus de alfabetização científica, como temos graus de letramento ou de alfabetização em língua materna. Isso depende do quanto a pessoa conhece acerca da ciência que ela está envolvida.”

Oportunidades e expectativas

Um dos novos alunos do curso, Antonio Ivan da Silva estava atento às palavras do acadêmico – e empolgado com as novas possibilidades de seu ingresso na UFFS. “Fiquei sabendo do curso pelos eventos da Universidade. Participei de um evento sobre a educação do campo no Ensino Médio e aí fiquei informado sobre o processo seletivo do curso”, contou. “Minha expectativa é de que o povo do campo não seja só objeto de pesquisa, mas que também possa estar dentro das universidades. Minha perspectiva é, depois de terminar a Graduação, poder voltar para a minha comunidade de origem, onde foi inaugurada uma escola do campo recentemente”.

Para o coordenador do curso, professor Denilson da Silva, a chegada de uma nova turma representa uma responsabilidade que se renova. “Construímos essa expectativa de termos uma nova turma desde meados do ano passado. Foi uma construção que envolveu o Colegiado do Curso, a direção do campus, a Reitoria da nossa Instituição e também os movimentos sociais, as lideranças indígenas, a própria Funai, para que tivéssemos a possibilidade de termos uma nova turma com diversidade semelhante a esta que agora chega”, afirmou.

O vice-reitor da UFFS, Antônio Inácio Andrioli, disse ser uma alegria poder compartilhar o evento. “Tivemos sucesso no processo seletivo, com mais de 200 candidatos para as nossas vagas. Sempre havia aquela pergunta: será que ainda há demanda para este curso? Agora está claramente respondido: temos ainda muita gente querendo estudar nesse curso”, apontou. “E quando falamos da Educação do Campo, é importante destacar que é o curso que mais tem indígenas na Universidade.”

Segundo Andrioli, isso se deve também a um princípio metodológico: a pedagogia de alternância. “Trata-se de algo que destacamos na Educação do Campo desde o seu movimento original, para que isso fosse uma política pública no Brasil. É necessário colocar cada vez mais a estrutura da universidade próxima das condições que as pessoas têm para acessá-la”, completou.