História dos povos indígenas e afro-brasileiros em discussão na UFFS – Campus Erechim

Publicado em: 24 de agosto de 2012 13h08min / Atualizado em: 05 de janeiro de 2017 12h01min

A segunda Semana Acadêmica do Curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) - Campus Erechim, que ocorrerá no período de 27 a 31 de agosto terá como tema “Educação Afro e Indígena: conceitos, práticas e estudos”. A programação tem como público-alvo, além de acadêmicos dos cursos de licenciatura, professores das redes municipais e estadual da região. A seguir o coordenador do curso de Licenciatura em História da UFFS – Campus Erechim, Fábio Feltrin de Souza, fala sobre a escolha do tema do evento.

Atualmente existe uma legislação em vigor que determina o estudo da história e culturaafro-brasileira e indígena nas escolas de Ensino Fundamental e Médio. Como você avalia o estabelecimento desse tipo de lei?

Fábio Feltrin de Souza - É importante fazer um apanhado histórico disso. O movimento negro reivindicou durante muito tempo uma lei que obrigasse o ensino de História da África em todas as escolas de Ensino Básico do país. Essa grande vitória do movimento negro foi conseguida em 2003 com a lei 10.639 que tornou obrigatório o ensino da África e o ensino da cultura Afro-brasileira. Houve um substitutivo dessa lei em 2008, que é a lei 11645. Essa instituiu, além da obrigatoriedade do ensino de África e da cultura afro-brasileira, o ensino da cultura indígena, da história indígena do país. Como nós temos essa obrigatoriedade mas nem todos os professores estão capacitados para isso, assim como nem todos os livros didáticos trazem a marca dessa obrigatoriedade, trazem essa história das práticas culturais dos povos descendentes de africanos, dos povos africanos e dos povos indígenas, nada mais justo do que nós, com um curso de Licenciatura em História dentro de uma universidade que se quer popular, comecemos a pensar aqui no campus, na região, uma capacitação para os professores. Não apenas para os futuros professores, acadêmicos do curso de História, mas professores das redes municipais e estadual aqui da nossa região.

 

As atividades da Semana Acadêmica, inclusive, são abertas para esse público?

FFS - A Semana Acadêmica é focada para um público interno, graduandos dos cursos de licenciatura, mas principalmente para os professores das redes municipais e estadual da região. É um evento de ensino de História para todos aqueles que pensam metodologicamente o ensino de História, mas também estão lá na ponta, na escola.

 

Considera importante se determinar essa obrigatoriedade do ensino da História dos povos indígenas e afro-brasileiros por meio de uma lei?

FFS - Na verdade, nós deveríamos criar um hábito, uma cultura de que as pessoas conseguissem, dentro das suas formações nos cursos de licenciatura, sobretudo na História, enxergar essas outras populações obliteradas [caídas no esquecimento] de uma história oficial. Entretanto, a gente sabe que, historicamente, as populações negra e indígena no Brasil foram esquecidas e continuam sendo esquecidas, tanto que a maior parte dos pobres deste país são negros e indígenas. Há um processo de apagamento e de esquecimento operado pelo Estado, foi o Estado português e depois o brasileiro que patrocinou a escravidão indígena e a escravidão negra, então me parece que nada mais justo que um movimento social reivindique que o Estado reconheça a sua culpa, digamos assim, com relação a esse processo nefasto de escravidão das populações indígenas e africanas. É claro que uma lei não garante nada, ainda mais no Brasil, mas é um marco para que nós comecemos a pensar, para que comecemos a discutir e ver que existem populações à margem, não só da sociedade, mas do processo de contar, do processo de criação, inclusive, de uma identidade nacional, de uma identidade regional.

 

O que significa dar ou não visibilidade para determinados segmentos da sociedade sob o prisma da História?

FFS - A historiografia, ou seja, as maneiras de contar a História são múltiplas e diversas. Só que hoje nós temos uma clareza bastante partilhada por todas as vertentes: o passado não é algo dado, o passado não está em um lugar onde nós vamos tirar a poeira e vamos trazê-lo à tona. O passado, a memória, está sempre em disputa, as maneiras de se contar esse passado, essas narrativas, estão em disputa, e é justamente dentro dessa disputa que o movimento negro e o movimento indígena forçam o estado brasileiro a implementar uma lei. Vamos continuar contando a história apenas dos imigrantes europeus por conta de uma narrativa de identidade? Nós vamos continuar reforçando os mitos fundadores, essas narrativas que legitimam uma certa identidade? Sempre que se legitima uma certa identidade, que se ergue um monumento, se deixa à margem uma série de populações que não entram no discurso formador. A disputa pelo passado é uma disputa política, é uma disputa ética, quando você se filia a uma tradição, quando você se filia a uma certa maneira de contar a História, você se filia a uma certa postura ética e política. Por isso a gente reforça a Semana Acadêmica no Ensino de História para marcar um compromisso ético e político do professor. Ele vai continuar contando as 'historinhas' que ele aprendeu ou ele vai problematizar constantemente essas formações discursivas, essas formações de identidade?

 

De que maneira essas historiografias transformam o cotidiano?

FFS - A gente costuma dizer que a História não trata do passado, ela trata do presente. Isso pode parecer paradoxal, mas a lógica é que são os problemas que emergem no presente que nos possibilitam outras versões do passado, e são essas versões do passado que vão ajudar a gente a conquistar cada vez mais liberdade no presente. Quando se traz essa pluralidade de sujeitos para o debate atual a gente quer dizer que não existe hierarquia entre etnias, que não existe hierarquia entre as pessoas. Então, quando a gente problematiza e encara a História dessa forma, nós vamos construir no nosso cotidiano maneiras mais livres e igualitárias de lidar com os outros.

 

De que maneira é importante para a região na qual a UFFS está instalada trazer esses aspectos para o debate?

FFS - A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) nasce das reivindicações de movimentos sociais. Historicamente a universidade, não apenas no Brasil, mas a instituição universidade, no Ocidente, sempre foi uma instituição de elite e, no Brasil, da elite branca. Quando você se predispõe a trazer a classe trabalhadora, as classes populares, para dentro da universidade, sem dúvida, está buscando inverter uma lógica bastante perversa no Ocidente, sobretudo no Brasil. É isso que a gente vê, não só com a UFFS mas com toda a política de cotas implementadas pelos últimos governos nas universidades federais. É a partir dessa política de reparação, como a gente costuma dizer, que a UFFS também nasce em uma perspectiva popular e para trazer esses esquecidos para dentro dos bancos universitários.

 

SEMANA ACADÊMICA DO CURSO DE LICENCIATURA EM HISTÓRIA

PROMOÇÃO: Diretório Acadêmico de História (Dahis) Olga Benário da UFFS – Campus Erechim

ABERTURA: 27/08 (Centro Cultural 25 de Julho, 19h15)

PROGRAMAÇÃO COMPLETA: Pode ser consultada no blog

INSCRIÇÕES: São gratuitas e os participantes serão certificados